O BARULHO DO SILÊNCIO – UM OXIMORO

(Ou a danada da cigana)

 Ademir Ferraz

            Estávamos ali sentados: Eu, ninha e sua irmã Gal, Decinho e Walter. Todos montados nos seus 8 a 10 anos. Discutíamos com Walter (poeta maior que se foi breve) a besteira do poeta dizendo: “...foi grande o barulho do silêncio”. Walter, já poeta maduro em seus 10 anos, entendia...nós outros não. Isso não passava de uma grande besteira de poetas que querem dizer o que não sabem. Uma destas baboseiras da vida poética. Eu dizia: Porcaria. O cara nem sabe rimar...Walter dizia: Dema, a poesia parnasiana deu uma bufa e se borrou. Que nada, que nada, gritávamos todos nós. Barulho do silêncio Walter. Que merda e essa? E Decinho com o ditado corrente: É moita!

            Decinho olha por sobre meus ombros e diz: Lá vem a cigana...uma danada de cigana que “via” tudo no futuro. Eu nunca quis saber. Tinha medo! Afinal se lá no fim de meu futuro eu fosse infeliz, minha agonia começaria ali. Bem ali no meu presente, naquele passado!

            Na verdade pouca gente queria saber o futuro depois que a danada da cigana acertara todas as 10 mortes. Ela não “profetizava” alegria. Só tristeza, tragédias. Aparecia de repente como de repente sumia. Já tinha uns dois anos que ela não aparecia. Tudo que previa acontecia...Não me canso de dizer isso!

            Mas Ninha e Gal (seria inocência?)  queriam sabe. Daquela vez queriam saber. Seus pais, seu Zezinho e dona Zefinha conversavam debaixo do pé de figo do mato. As meninas deram-se as mãos (tão gostosas quantos suas pernas) e foram conversar com a danada da cigana. Primeiro Ninha, depois Gal. A danada da cigana leu a mão de Ninha e disse: falo depois. Deixa ver a sua irmã. No momento não me dei conta...Mas como sabia que eram irmãs? Ela não conversava com ninguém! Sei, isso é besteira. Poderia notar pela semelhança naquelas carinhas lindas. Também uma cidadezinha pequena onde todos se conheciam, Bom Conselho, ah! Sei lá. Ela sabia.

            Sei que depois de Gal ela olhou para cada um de nós como se tivéssemos algo a ver com a vida futura de uma ou de outra ou das duas! Ah! Olharzinho filho da puta! A danada disse: Breve, muito em breve, vocês vão ficar órfãs! Porra! Deu um medo danado. Todo mundo calado, ninguém dizia nada até que Decinho sai com uma das dele...Calma gente, estão nervosos? Ela nem disse se de pai ou mãe! E eu: Porra. Isso interessa? Sai Walter com a dele...Porque ela não diz qual o bicho de amanhã? Ficamos entre sorrir, nos apegando na racionalidade do poeta, ou chorar observando que a danada nunca havia falhado!

            Seria seu zezinho? Seria dona zefinha? Claro que ninguém perguntou nada a ninguém. Só pensávamos nisso. Tenho certeza. Gal não agüentou e correu para casa chorando. Abraçou dona zefinha. Não por outra coisa a não ser por mãe e filha serem mais apegadas...Castigo, disse dona zefinha. Castigo por esta besteira...No fundo: Castigo por deixar seus pais angustiados.

            Se bem me lembro, uns 4 a 5 meses depois dona zefinha ficou doente pra valer. Aí foi inevitável: Porra, a cigana! O médico da cidade era Dr. José Barbosa que, claro, não estava nem aí para a cigana. Tudo coincidência! Analisou a doente e descobriu um caroço. Tinha de ira pra Garanhuns...Medo! Angustia! Seria coisa ruim? A danada acertara novamente? Lá vai dona zefinha para Garanhuns fazer exames...Lá se descobriu que só em Recife (um dia de viagem). Foi, mas foi pra rezadeira antes, claro. Quinze dias depois seu Zezinho volta.

            Seria acaso que estivéssemos todos juntos? Estávamos juntos quando a danada chegou, estávamos juntos quando Dr. Barbosa falou da doença, estávamos juntos quando seu Zezinho apontou no inicio da rua...Lembram que a danada olhou para cada um de nós?

            De longe percebi (ou queria perceber?) que algo de bom havia acontecido. Arrisquei: Ela vai ficar boa! E foi a noticia de seu Zezinho. Dentro de, no mais tardar, 30 dias ela estaria de volta. Festa...uma grande festa. Eu me pergunto: a festa não foi maior do que comumente seria se a cigana não estivesse metida nisso? A verdade é que por detrás das cortinas todos acreditavam de alguma forma na cigana. O que mais queríamos era que ela falhasse.

            Passados 30 dias estávamos sentados na calçada (não, não vivíamos juntos. Quem mais vivia junto era eu e Decinho). No fim da rua apareceu o Professor Joaldy. Coisa boa não podia ser. O saudoso e amado mestre era usado para consolar, para dá noticias ruins. Noticia ruim: Chama Joaldy.

            Todo mundo tentando adivinhar...Walter me olhou e perguntou: Percebes algo Dema? Calado estava calado fiquei...Sentia um medo danado. Decinho não agüentou e correu em direção ao professor. O professor olhou para ele, olhos cheios de lágrimas, sussurrou algo. Decinho veio ao nosso encontro em disparada gritando: foi não Ninha, foi não...não foi dona zefinha...foi seu Zezinho! Fez um silêncio danado...Como descrever aquele momento? Ah! Foi ali que entendemos o poeta: O barulho do silêncio nos esmagava.